Comunicação e Tecnologia: quatro séculos e meio de história e inovações para a Humanidade

Imagine que apenas pouco mais de 40 anos nos separam do início da Internet, advento que mudou as sociedades e o modo de vida das pessoas e empresas em todo o mundo. Imagine mais ainda que, entre a invenção da escrita pelos sumérios, em 3.500 a.C., e os primórdios da Internet, em 1971, passaram-se mais de quatro séculos. Temos a sensação de que o tempo está passando muito rápido quando na verdade não é o tempo que corre mais rápido, nós é que estamos com o nosso tempo bastante ocupado, e cada vez mais conectados ao ciberespaço “full time”. Isso dá a impressão de que o relógio anda mais depressa.

Podemos tomar a evolução nas Comunicações como a evolução da própria Humanidade. Senão, vejamos: outro marco desta época foi a criação da prensa de tipos móveis, pelo alemão Johannes Gutenberg, em 1439. Sua principal publicação, a “Bíblia de Gutenberg” é considerada a relíquia impressa mais importante da história. Essa invenção revolucionou a Europa ao permitir que livros fossem produzidos em escala, acabando com a necessidade hercúlea de copiá-los a mão. Assim surgiu um novo mercado – o editorial – que se tornou cada vez mais importante no contexto cultural do Ocidente.

Em 1946, surge, como estratégica arma de inteligência durante a Segunda Guerra Mundial, o ENIAC, aquele que seria o pai de todos os computadores. Foi criado pelos americanos John Eckert e John Mauchly e tinha a incrível capacidade de fazer 500 multiplicações por segundo. Seus filhotes mais notáveis – os PC’s (personal computers) – surgiram em 1975, com Altair 8800, e, em 1976, com o Apple I. Estavam criados, naquele momento, os aparelhos mais importantes para a geração humana que viria a seguir.

Já na década de 1960 a Humanidade dá um novo salto: em função do início da Guerra Fria, o engenheiro polonês-americano Paul Baran havia sugerido que a melhor forma de um sistema de comunicação resistir a um ataque era a formação de uma rede de comunicação baseada em pontos, mas cuja configuração seria distribuída de modo que se uma fosse destruída as demais continuariam a existir. Isso foi o estopim para a criação, em 1971, pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, da ARPANET, desenvolvida para ligar as bases militares. Nos anos de 1970, universidades e institutos foram conectados na rede, que ganhou uma versão civil – a Internet. Atualmente estima-se que existam mais de 3 bilhões de usuários na web, segundo dados da União Internacional das Telecomunicações, órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), sendo que o Brasil responde por 102 milhões de usuários.

No contexto de Brasil, nossos primeiros movimentos nessa “Era da Comunicação” datam de 1747, quando foi feito  no Rio de Janeiro o primeiro trabalho impresso no País: “Relação de entrada”, de 17 páginas. Já em 1808 surge o primeiro periódico do Brasil, “Gazeta do Rio de Janeiro”, com sua primeira edição de quatro páginas, feita na Impressão Régia. Hoje, o Brasil é considerado um dos países mais avançados em Comunicação, com usuários “hiperconectados”. Dos 7 bilhões de usuários de conexões móveis em todo o planeta, cerca de 120 milhões estão no Brasil. Isso é resultado da crescente popularização e a acessibilidade econômica aos aparelhos smartphones e tablets, especialmente entre as camadas mais jovens.

Dois autores revelam que transformações ocorreram de forma ininterrupta nos últimos séculos. O cientista social Manuel Castells, nascido na Espanha e professor da Universidade da Califórnia, diz que nossa sociedade vem passando nas últimas duas décadas por um processo multidimensional de transformação estrutural. Nesse contexto, ele cunhou uma frase que ficou célebre: “Vivemos na Galáxia da Internet”, numa referência de que formamos uma economia em rede que gera novas formas de organização da produção, distribuição e gestão. Alguns anos antes, em 1962, o professor canadense e teórico da Comunicação, Marshall McLuhan havia cunhado outro termo: “A Galáxia de Gutenberg”. Ele se referiu às transformações da cultura oral diante da cultura escrita, alegando que o invento de Gutenberg mudou a forma como lendas, histórias e tradições eram passadas entre gerações, a partir da oralidade. Com a prensa, adquire-se uma nova forma de transmissão de conhecimento: a escrita. Posteriormente, em 1935, o engenheiro russo radicado nos Estados Unidos, Vladimir Zworykin desenvolveu um protótipo de televisão. Esse seria outro ponto chave na transformação do processo de transmissão do conhecimento. Com a TV cria-se o conceito de “Aldeia Global”, comunicando seres em todo o planeta por meio da Comunicação Eletrônica.

Comunicação e Tecnologia caminham juntos. Quanto mais novas e disruptivas são as tecnologias, maiores os saltos na Comunicação, que, por sua vez, atua como o principal canal de indução de criação de novas tecnologias. Funcionam complementarmente, retroalimentando-se uma da outra. Basta dizer que, enquanto algumas coisas simplesmente deixaram de existir como, por exemplo, a máquina de escrever, outras surgiram e hoje são para o ser humano necessidades básicas, como os motores de busca na Internet, o acesso ao wi-fi, ou uma simples tomada para recarregar os smartphones. Tanto assim que estudiosos elaboraram uma versão diferente da “Pirâmide das Necessidades de Maslow”, com novas hierarquias das necessidades humanas adaptadas às mídias sociais. Nesse caso, tanto o wi-fi quanto a tomada elétrica estão na base da pirâmide, ou seja, entre as necessidades fisiológicas do indivíduo.

Para o filósofo alemão Jürgen Habermas, a sociedade existe em dois níveis: o do “Sistema”, aquele regido por mecanismos diretivos autorregulados como o mercado e o poder administrativo, e o do “Mundo da Vida”, este regulado pela busca do entendimento através de procedimentos mediados linguisticamente. Em ambos os níveis de sociedade não há como separar Comunicação e Tecnologia. Essa visão vem de encontro a outro conceito moderno, o da “Cultura da Convergência”, desenvolvido pelo americano Henry Jenkins, um estudioso dos meios de comunicação, considerado um dos pesquisadores da mídia mais influentes da atualidade. Para ele, vivemos em um cenário em que as velhas e novas mídias colidem, se cruzam no dia a dia das pessoas por meio da conexão entre múltiplas plataformas. Jenkins fundamenta seu argumento em alguns conceitos básicos: a Inteligência Coletiva, que se refere à nova forma de consumo, e a Cultura Participativa, que caracteriza o comportamento do consumidor midiático contemporâneo, cada vez mais distante da condição receptor passivo.

Se “o tempo não para”, como diria o poeta Cazuza, não podemos adivinhar até onde nos levarão todas as mudanças pelas quais estamos passando, como preconiza Margaret Wertheim: “assim como os homens de ciência da Idade Média, estamos apenas iniciando o conhecimento sobre esse novo espaço. O que a história fará desse dele, de maneira muito apropriada, só o tempo irá dizer”.

Nos slides a seguir, veja o quanto evoluiu a Comunicação nos últimos quatro séculos e meio e seus principais marcos inventivos e tecnológicos.

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLS, M. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
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MCLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg: A Formação do Homem Tipográfico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.
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PINTO, José Marcelino Rezende de. A teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas: conceitos básicos e possibilidades de aplicação à administração escolar. Paidéia (Ribeirão Preto) no. 8-9 Ribeirão Preto Feb./Aug. 1995. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X1995000100007. Acesso em: 13 out. 2016.
RIZZINI, Carlos. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, 1500-1822: com um breve estudo sobre a informação. Ed. Fac-similar. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1988.
WERTHEIM, Margaret. Uma história do espaço de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

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